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“HABEAS CORPUS”

Habeas corpus quer dizer, literalmente, "que tenhas o teu corpo". A expressão é originária do latim, significa uma ação jurídica utilizada para proteger indivíduos que tenham sua liberdade infringida.

Trago à tona esta expressão para denunciar falsa liberdade que se alardeia no nosso país, já que somente os que estão em acordo com o código de costumes vigente (ou seja, usufruem seus corpos em consonância com as regras estabelecidas) gozam dos plenos direitos garantidos, teoricamente, a todos pela lei.  Nem todos têm os mesmos direitos. Seja sobre seus corpos, seja a decisão sobre o que fazer dele. Por isso, aqueles em desacordo com este código estão em “não-conformidade”. Este termo, fluido, genérico, serve bem ao propósito de segregar.
"Habeas corpus": que tenhas teu corpo
Ao irmos para o mundo, usamos o corpo como veículo e a essência, a alma, fica sob este manto. Habitamos o corpo e saímos em busca de nossas identidades. Fazemos o que se espera que façamos, nos vestimos com couraças sociais, profissionais, da idade, de gênero e, se esta veste não representa a pessoa que sou, não resta muito a fazer senão tentar fugir dessa coação cotidiana ou se trancar, silenciar, morrer mesmo um pouco todo dia, exercendo o que se impõe como certo, liquido, garantido. 

Guiados apenas pelo senso comum, tentamos encontrar meios de ser, simplesmente, o que entendemos que somos e as escolhas (sim, escolhemos o tempo todo, nos esconder ou nos mostrar, a submissão ou a revolução) limitam os campos de atuação.

Interessa-me falar, aqui, dos silêncios trancafiados sob um véu de medo pela invisibilidade, das pequenas mortes em prol de uma subsistência insossa, pela perda do que se é causada pelo que se representa. Falo de qualquer essência, qualquer expressão que se mostre contraditória ao status quo vigente.

No foco desta coluna está a força que determina e que impulsiona indivíduos à decisão pela transição. Não pretendo escrever aqui tratados sobre transgêneros, sobre militância e muito menos sobre o que uma pessoa deve fazer para fazer a transição seu gênero ou sexo, já que são falas que não me cabem e prefiro deixá-las para quem as faz com mais propriedade ou representatividade. 

Proponho focar no que impulsiona, no que estaria sentindo o indivíduo no momento em que faz suas escolhas, o que move essa alma que, em geral, não consegue dizer exatamente o que quer expressar por estar vestida numa língua, numa sociedade, num corpo que não viabiliza instrumentos para tal. 

Se são os sentimentos impulsionam as decisões, seria preciso, de alguma forma, trazê-los à consciência e torná-los coesos com o que se é no mundo. Esta é a busca que proponho.


Comentários

Fe Maidel disse…
O comentário abaixo foi feito por Elisa Próspero, (https://www.facebook.com/elisa.prospero.35):

"Belo texto, Fe Maidel! Lindo isso - "que tenhas o teu corpo", que transcende sexo, gênero e ego; mesmo que limitado por lembranças e memórias, sonhos e reflexões, a expressão do Ser prepondera e é sublime na infinitude da existência. A busca - mesmo que oprimida pelas margens da cultura e sociedade, expande a consciência na impecabilidade do Ser, que por vezes resvala na falácia do livre arbítrio. E, mesmo assim, encarcerados pelo inconsciente infinito, seguimos a jornada. Há sonhos. Há esperança."

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