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"Ninguém nasce mulher, torna-se...."- reflexões sobre feminismo, transgêneros e radicalismos (parte 1)


Durante muito tempo minha atenção ficou presa à conjectura de que eu precisaria mudar, moldar, construir em mim algo que me tornasse uma “pessoa possível, viável”. Ao descobrir que o que precisava ser mudado era o modo como eu me via e entendia, e aceitar essa forma de ser, permitiu aproximar-me de como se dá a construção do feminino, que acontece de forma diversa da construção do masculino. Isso levou-me  a rever o conceito elaborado por Simone de Beauvoir, “Não se nasce mulher, torna-se uma mulher".


Presente na obra "O segundo sexo", a feminista francesa defende que isso se dá pela experiência familiar, na qual a menina constata o prestígio do pai e percebe que o mundo pertence aos homens. Enquanto o menino apreende sua superioridade através da rivalidade, a menina espera dele (pai/masculino), uma valorização e cita também que “...a mãe, por comodidade, hostilidade ou sadismo, descarrega na filha boa parte das suas funções e a criança é precocemente integrada no universo da seriedade, o que a ajuda a assumir sua feminilidade.”

Esta percepção de Beauvoir pode ser constatada até hoje, seja em sociedades ditas “avançadas” como nas chamadas “retrógradas”. A criação através das gerações, as expectativas em torno da sociabilidade, da carreira, a igualdade de deveres (e a dificuldade em usufruir dos mesmos direitos), fazem parte deste quadro multifacetado. Construir-se "feminina" a partir de um referencial masculino é uma forma de entender este postulado. A feminilidade, podendo ser “ajudada” a aflorar, seria uma “poda”, um “ajustamento” ao mundo masculino. Boa parte do potencial criativo seria “podado” e “desprezado”.

Os últimos cinquenta anos mostram que a sociedade se moveu e que é inegável que toda pessoa tem, em si, elementos femininos e masculinos, “sombra e luz”, "yin e yang". Estas são dicotomias estabelecidas internamente buscando obter equilíbrio, seja social, seja pessoal, para dar conta daquilo que somos no mundo. Está claro que há mais do que uma dicotomia que apenas divide e, pelo menos àqueles que se dispõe a perceber, algo mais está mudando.

Os elementos femininos e masculinos, presentes em todas as pessoas, e a  recuperação dos potenciais criativos, permitem que nos aproximemos de um feminino que se descobre e desvela a si, independente do olhar masculino que dá "forma ao mundo", que se apresenta como um movimento em direção ao âmago da essência do que se apresenta “feminino”, em todas as pessoas.

Assim, para "escândalo dos conservadores", vemos homens maquiados e de saias, mulheres lutando Muai-Tai ou Box, casais buscando sua felicidade, pouco importando o sexo ou a genitália, mas aquilo que um representa para o outro.
Parece que os conservadores dão maior valor à ordem, ao que é visível, do que ao que é intrínseco e autêntico, pois provavelmente privilegia estes os faria perder o poder sobre o "rebanho". 

Comentários

Elisa disse…
Sem dúvida... nos tornamos homens e mulheres a cada dia na convivência com a família e amigos, na escola e no trabalho, na comunidade e no lazer. Vamos moldando em torno da cultura nosso Ser mais ou menos consciente de sua Fonte real - de quem se É. Jung fala do Self e do processo de individuação do Ser - e como vamos nos conectando com nosso Eu Superior - Eu mesmo. Um caminho e um destino - nosso encontro com nós mesmos. E isso é maravilhoso! (Sim, o grande temor dos conservadores em pauta!)
Elisa Próspero

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