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"Ninguém nasce mulher, torna-se...."- reflexões (parte 2)

Este post é continuação do texto "Ninguém nasce mulher, torna-se...."- reflexões sobre feminismo, transgêneros e radicalismos (parte 1)

Para construí-lo, contei com a ajuda da Maria Antonieta, do BCC, da publicação de Leopoldo Costa, que indicou o texto publicado em "Nosso Século", e da colaboração de Thais Plaza, educadora na área da sexualidade humana, que apresentou trabalho acadêmico (assim que houver um link disponível, publico aqui) no qual traça estuda o perfil da mulher brasileira a partir de seus antecedentes coloniais, ou seja, das mulheres indígenas sequestradas para servir a um senhor, das mulheres negras sujeitas aos mandos da escravidão e as mulheres brancas, senhoras que pouco podiam além dos limites dos domínios de seu senhor (fosse esposo, pai ou patrão), e sua influência na construção do feminino contemporâneo.


Pois bem, pensando em como a mulher se constituiu (e ainda se constitui em nossa sociedade), retrocedo no tempo, antes de Beauvoir estabelecer sua crítica e, para ilustrar o que iniciei na primeira parte do post, transcrevo aqui textos contundentes, retirados da midia brasileira do inicio do século XX, época em que foram veiculados, mostrando o quanto é poderosa a "máquina ideológica" por tras do que se convencionou posteriormente de "genero", e por remeterem tão explicitamente ao que vemos hoje como expressão da tentativa de repressão que testemunhamos. 

Lembro que a Constituição Brasileira de 1924 atribuía à mulher o valor de uma propriedade e até meados dos anos 30 do século passado, mulheres não tinham sequer direito a voto. Aos homens, vestir-se com roupas femininas era considerado crime, ofensa, perturbação da moral e dos bons costumes. Isso não se restringia ao nosso país, essa realidade permeava quase (se não todos) os países do mundo.
Vou omitir meus comentários... deixo a quem ler este privilégio.

"Mulher distinta jamais sai de casa sozinha, seja para as compras, seja para o cinema; a companhia do marido, de um irmão, uma senhora idosa ou um filho é indispensável. Fumar ou cruzar as pernas é simplesmente escandaloso. Rir, falar alto ou usar gíria resulta em imediata e implacável condenação. Tocar violão, balançar os braços ao caminhar ou recostar-se na cadeira revelam má educação. E, para ser considerada bela, é preciso fugir do sol: a alvura da pele deve ser mantida a qualquer custo, e não se pode contar com o disfarce do pó-de-arroz - é malvisto em público. Os lábios e as espáduas devem ser róseos, os cabelos finos e longos, os contornos do corpo redondos e macios, o olhar meigo e atento."
"Nas cabecinhas femininas, sob os chapéus de fitas e plumas coloridas, não se espera encontrar muita coisa além de esculturais penteados obtidos com a ajuda dos ferros de frisar. Pois a missão da mulher é uma só: "fazer os grandes homens". Como esposa e como mãe. Pretender seguir os passos dos homens , aprender o que eles sabem e disputar suas funções, privando o lar de sua deusa protetora, que conforta nas dores e desfalecimentos, é contrariar a própria natureza feminina, na qual o altruísmo prepondera."

"Entre as limitações impostas e os louvores à 'natureza feminina", com que se tentava justificá-las , que restava à mulher? Todo um cotidiano, que, para as senhora da boa sociedade urbana, poderia ser o seguinte:

Às sete horas da manhã a família toma o seu desjejum: café com leite,bolos e biscoitos, servidos por uma copeira branca. E elegante ostentar brancas , de preferência louras, no serviço da casa. Os filhos permanecem silenciosos, limitando-se a falar somente quando solicitados. Passarão o dia na escola. Até o almoço, às 10 horas, a dona da casa dispõe de tempo suficiente para folhear figurinos de moda. Recebe em casa a costureira e, tendo já delegado à governanta a fiscalização da limpeza e da arrumação, assim como a conferência do rol de roupas e a preparação do menu semanal, pode dedicar-se a bordar monogramas na roupa branca da casa ou a ler algum romance francês. Depois do almoço, receberá para o chá das 13 horas as damas da sociedade, que fazem tricô e crochê para a quermesse da igreja. Após o jantar, às 17 horas , a fatigada anfitriã repousa. À noite receberá a visita de alguns parentes. Entre um assunto e outro, haverá quem toque piano, cante ou declame poemas."

"O certo, porém, é que em raros momentos a dona da casa seria gozado de algum conforto, pois, além de todas as restrições à sua iniciativa e liberdade, ainda existem ditadas pela moda. "O espartilho parecia inspirado na armadura medieval, mas era um tormento recebido com volúpia. (...) Se a mulher era gorda com pretensão a elegante, começava a comprimir as abundâncias dentro do estranho tormento. (...) Depois de cingido e apertado, 'madame' comparecia confiante e risonha a uma festa onde não podia comer nem tomar um copo de água porque a compressão do aparelho digestivo não lhe permitia tal liberalidade. Tinha de debicar como passarinho. (...) Não podia curvar-se. (...) Se rebentasse o cordão , aconteceria algo semelhante ao estouro de um pneu". (Barros Ferreira, historiador.)

"E além de suportar os espartilhos, que lhe atrofiavam as costelas e espremiam os rins e o fígado, uma esposa paria uma vez por ano. O pai, orgulhoso reprodutor cada nascimento, especialmente se o recém-chegado fosse do seu mesmo sexo. A mãe, por mais que estivesse, carregando dez filhos nas costas aos 25 anos, enfrentava passivamente cada nova gravidez cortando e bordando as roupinhas da criança. Vestida no seu "fardão", cheia de enjoos e "desejos", era tratada quase como uma doente . Se pretendia amamentar - o que não era muito comum entre as mulheres de elite, que transferiam esta função às amas-de-leite - , cuidava de tomar certos preparados, como o "Vinho Biogênico" ou o "Xarope Vitamino!", para garantir a quantidade e a melhor qualidade de seu leite . Caso contrário o grande trabalho era encontrar uma ama. Porque o leite era de fato um problema. Comercializado sem as mínimas condições de higiene, tinha certamente uma parcela de responsabilidade nos altos índices de mortalidade infantil."

"Aos doze anos, a mulher é a crisálida que espera a luz do amor para tomar-se dourada borboleta; aos treze, é um poema lírico a que falta a última estrofe; aos catorze, é um hino de harpa eólia; aos quinze, é um astro em tomo do qual rodopiam a graça, a harmonia e o amor; aos dezesseis, é uma estátua de Madona que procura um coração de homem para dele fazer o seu altar... " E é preciso encontrá-lo com urgência, pois, aos vinte e dois, será "uma lágrima da noite banhando um túmulo de virgem", ou melhor, uma solteirona ... (Citações da revista Íris, 1905.)

"E nada mais terrível que o destino de solteirona. Sem acesso a outro reino que não o doméstico, só lhe é dada uma alternativa: atrelar sua existência à dos pais, até tornar-se, nas palavras do implacável artigo da revista Íris, "um túmulo cheio de ilusões murchas" e "o cadafalso do prazer".

Educada para o matrimônio e a maternidade, a moça pretendente não precisa de muita coisa para ter sua bagagem completa. Ramalho Ortigão, escritor português, afirma que: ''Os conhecimentos indispensáveis à mulher deveriam constar, na educação elementar, dos seguintes ramos de ensino: 1. curso de asseio e de arranjo; 2. curso de cozinha (química culinária); 3. contabilidade, escrituração e economia doméstica. (...) A menina aprenderia, primeiro que tudo, a fazer um caldo. Toda a mulher que não sabe fazer um caldo deveria ser proibida de dirigir uma casa".

Acrescentando-se a isso um vernizinho de francês, certa familiaridade com bordados e crochês e algumas peças tocadas corretamente ao piano, teremos o quadro completo da filha pretendente.

Ah, o piano ... Casa que se prezasse ostentava, em lugar de destaque, um vasto .piano de cauda, importado da França ou da Alemanha: Bechstein, Pleyel, Steinway, Gérard. Prenda indispensável, tanto quanto a culinária, o estudo do piano era imposto a quase todas as moças . "E quase todas, quando casavam, traziam o piano como parte · do mobiliário da casa. As que aprendiam só para mostrar que eram 'prestimosas' deixavam a música no primeiro mês de gravidez, e o piano era vendido 'para auxiliar o pano'. ( . .. )As que não se casavam continuavam a tocar com a janela aberta, na esperança de que se interessasse pela música um espírito de artista que passasse pela calçada. As que tocavam bem e não se casavam, faziam-se professoras de piano". (Jorge Americano.)

Tudo , podia acontecer num baile - onde moça que arriscava-se a "ficar falada" - e continuar através de conversinhas à janela, trocas furtivas de cartas , flores e postais, além dos temos olhares na missa dominical (de preferência a das 9) ou na ante-sala do cinema. Mas o fato é que nesse tempo as alianças ainda obedeciam mais aos interesses familiares que a quaisquer outras considerações de ordem romântica. Tanto que,  quando se tratava de família abastada, era o pai do interessado quem acertava o noivado com o pai da pretendida. E dizia-se que, nessas famílias, cada filho ou filha que se casasse recebia uma casa (cerca de 50 contos de réis) e 200 contos em dinheiro, ações ou imóveis. Não era para brincar...

Noivado acertado, as famílias do noivo e da noiva recepcionavam-se e a data do casamento era marcada. A partir daí, o rapaz passava a ser recebido em casa, tornando-se frequentador assíduo do chá e dos jantares domingueiros. Mas jamais conseguiria um minuto a sós com sua noiva - era impossível escapulir do olhar severo da sogra."




Publicado em "Nosso Século" vol.1, 1900/1910, editor Victor Civita, Abril Cultural,São Paulo, 1980, excertos pp.112-121

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