Pular para o conteúdo principal

"Ninguém nasce mulher, torna-se...."- reflexões sobre feminismo, transgêneros e radicalismos (parte 3 - final)

Minha intenção, ao produzir os textos para esta coluna, é conversar sobre possibilidades de existir que provavelmente sejam novas ou inusitadas para a maior parte das pessoas. Percebo que, de vez em quando, acabo resvalando em fronteiras nas quais os que estão imersos em dúvidas se defrontam com os que arrogam certezas e, para ambas as partes, é muito difícil explorar e discutir o lugar que ocupam e o lugar do outro no mundo. Este post, sendo continuidade dos textos "Ninguém nasce mulher, torna-se...."- reflexões sobre feminismo, transgêneros e radicalismos (parte 1 e parte 2), pode ser mais esclarecedor se os dois primeiros forem lidos antes deste.

Para compor meus artigos, trago questões e histórias de outras pessoas que, acredito, de alguma forma ilustrem o que é viver uma transição. Meu objetivo é compor um mosaico que permita a quem está em um dos lados dessa fronteira, enxergar possibilidades de ação e mobilidade, seja emocional, física, intelectual e, ao mesmo tempo, construir uma argumentação razoável junto aos que resistem a mudanças, para quem a vida deve transcorrer sempre em acordo com o previsto e que toda ambivalência ou transgressão devesse ser extirpada, punida, expulsa. O resultado, segundo os comentários, tem sido bem-sucedido.
Decidi mudar parte do artigo final desta trilogia para poder refletir sobre um dos comentários postados no Facebook por H.V.: “Gostei, mas discordo que ser mulher faz parte de uma construção social. Existem homens que já nascem mulheres sem a necessidade de quaisquer construção ... Ou se nasce feminino/a ou nunca será.”

Minha crença pessoal, lastreada em parte por minha formação, em parte por minha vivência, é que nada vem pré-definido. Somos todos ambivalentes ao nascer, ou seja, somos potencialmente tudo o que pudermos, falaremos todas as línguas, praticaremos esportes, comeremos de tudo, amaremos aos outros... se as condições em que formos criados nos permitirem acessar todas as condições para tal. No primeiro post da série, usei o trecho de Beauvoir para provocar e polemizar, e no segundo, textos da imprensa brasileira que reforçaram o estereótipo de feminino “adequado” a seu tempo. Pois, bem, aqui, gostaria de refletir sobre o feminino que vemos hoje, que tem se “descolado” do olhar masculino para exercer seu próprio caminho, incluindo aí, pessoas que se permitem existir, libertam-se dos grilhões e assumindo o feminino que existe em si.

A 70 anos atrás, logo ao fim da II grande guerra, encontrar mulheres que praticassem esportes masculinos, como futebol, boxe, Muay-thay, era impensável. As culturas antigas, grega, romana, nipônica, judaica, compartilham o conceito confucionista considerando a mulher inferior e o homem, superior, ainda que, em alguns momentos, a figura feminina tenha sido valorizada em termos diferentes e até mais igualitários por algumas delas. Historicamente algumas culturas têm este movimento como demonstração ímpar de caráter e nobreza. As histórias de Joana D’Arc e Maria Quitéria ilustram isso, ainda que, em sua época, tenham convivido com grande preconceito. A lenda de Mulan, idem. A Constituição Brasileira de 1924 atribuía à mulher o valor de uma propriedade e até meados dos anos 30 do século passado, mulheres não tinham sequer direito a voto. 

Já quanto aos homens, vestir-se com roupas femininas era considerado crime, ofensa, perturbação da moral e dos bons costumes. Isso não se restringia ao nosso país, essa realidade permeava quase (se não todos) os países do mundo. O princípio de que homens não devem “declinar” para uma posição “feminina inferior”, bem como o  transitar do feminino para o masculino, são enfatizados na nossa sociedade. Frases como "ninguém diria que você não é um homem!" (no caso de homens trans), ou "você é uma mulher perfeita!" (no caso de mulheres trans) podem até parecer elogios, mas não o são por trazerem embutido aquilo que se considera “apropriado” a cada um dos sexos.

Em contraponto, a ciência moderna, a necessidade de mão-de-obra no período pós-guerras e as grandes conquistas feministas do séc. XX, mostraram que homens e mulheres são potencialmente equivalentes. Por outro lado, até poucos anos atrás, a homossexualidade era considerada uma doença psiquiátrica. Na Inglaterra, cadeia e castração química eram algumas das penas possíveis. O “transgênero” (se posso usar esta palavra) ainda está no rol dos transtornos tratáveis pelos médicos psiquiatras.

Como sou?", "Como me vejo?"

Refletir sobre feminismo, transgêneros e radicalismos em nossa cultura ocidental contemporânea, implica em reconhecer que prevalece uma visão sexista no mundo, na qual homens são de um jeito, mulheres são de outro. Percebe-se  homens e mulheres com papéis pré-definidos, direitos e deveres estabelecidos e pouca disponibilidade à elasticidade nestes papéis.

Quando uma pessoa traz para si o olhar carregado de preconceito, provavelmente se trate de uma questão tão importante que sobrevivência, sociabilidade, viabilidade, escorram pelos dedos. Surge, então, a pessoa de fato.

A expressão desse “eu” é  o que torna possível a visibilidade, o pertencimento e a autonomia, sendo esta uma das mais importantes construções que realizamos em nosso desenvolvimento. Sua elaboração é fundamental para que cada um possa se entender como indivíduo. E este é um dos focos da transição, entender como você é, como se vê, ser o que você entende ser. Separado do que outros “acreditam” ou “querem” que você seja.

Você já se perguntou “Como sou?" ou "Como me vejo?". Faça-se esta pergunta. Dificilmente chegará a uma resposta que consiga se mostrar completa e autêntica, em pouco tempo. É preciso elaborar, testar, rever. A visão que cada um tem de si é construída desde o início da vida e é a partir deste conceito que estabelecemos vínculos, afetos, socialização.

As pessoas, ao manifestarem sua individualidade, percebem que diferem umas das outras e uma das questões marcantes que surgem são gênero e sexualidade. Diferentemente do passado, as pessoas hoje querem se conhecer, explorar, trocar experiências, e passaram a criticar os rótulos impostos pela “normalidade”. O momento que vivemos expressa essa crítica, trazendo a possibilidade da ambivalência.

Hoje, a meu ver, vivemos na história ocidental contemporânea a maior revolução de que se tem notícia: a Revolução de Gênero.

"Como sou? Como me vejo?


Mudar implica em encarar o vácuo que surge

Mudar implica em encarar, também, o vácuo que surge no íntimo e na vida, ao qual juntam-se outros que não estão sob o controle de quem vive o processo que vêm como resposta do mundo ao movimento de transição. E são tantos, que se torna impossível tratar genericamente do assunto. Assim, cada transição torna-se única, e nunca passa despercebida ou incólume.

Quem se dispõe à transição se vê impulsionado por sentimentos e emoções difíceis de lidar, levando possivelmente a uma menor clareza da situação, que pode levar a situações de real perigo e danos. Quanto mais radical e rápido o processo, maior e mais potente a resposta do mundo. A ansiedade pela realização do sonho implica num aumento considerável de risco.

Em algum momento da vida, estamos sujeitos a viver momentos de solidão ou passar por uma sensação de abandono, sentindo-nos sem rumo, direção, objetivo. Às vezes, invade uma sensação de não pertencimento, como se estivéssemos apenas de passagem. Sentir-se assim é, creio, parte da existência. Temos que sentir o vazio para valorar a plenitude. Sem um, o outro esvazia-se de significado. Apesar disso, persistir nesse sentimento de abandono pode levar o indivíduo a uma sensação de permanência que eterniza o vazio. Esses sentimentos que às vezes invadem devem servir como balizamento para trazer consciência dos limites, do potencial, do existir.

O ato de transicionar serve principalmente para dar forma a algo que existe no íntimo da pessoa e que não encontra eco, espaço, lugar no mundo. É uma luta do indivíduo consigo mesmo, procurando conseguir conciliar a essência e a existência.

Transição: traço comum de nossa era.

Acreditando que todas as pessoas estejam atravessando algum tipo de transição em suas vidas, aceitar os convites para olhar para si e para o outro podem tornar as transições pelas quais estejam passando palco de novas ideias e possibilidades, reestruturando conceitos que podem ter-se cristalizado e perdido força com o passar do tempo.

A expressão da diversidade é uma importante faceta de nossa sociedade atual e entender a demanda de cada pessoa, explorar o seu significado e os sentimentos que cada um nutre a respeito, bem como a profundidade de cada indivíduo, deve ser a base do acolhimento que essas pessoas recebem. Pelo fato de cada pessoa ter sua demanda individual, todos são únicos e trazem sua necessidade única.

Vem à tona a questão: se nossas escolhas variam sob as influências que sofremos, como garantir que fazemos as melhores escolhas? Simples: não há como garantir. Sempre escolhemos nossos caminhos baseados em premissas que nos dão segurança, retorno, que respondem a princípios caros que dizem respeito a cada um. Essas premissas, valores e crenças são reavaliadas e questionadas por cada um, o que nos atualiza todo o tempo.

Transicionar implica em, constantemente, rever os próprios passos e escolhas e reavaliar se, depois de feitas e consolidadas, essas escolhas ainda seriam um caminho a seguir.

Quando se dispõe a transicionar, por mais claro que lhe pareça o caminho, a pessoa parte em uma jornada na qual deve lidar com seus vazios, com as coisas as quais deve abdicar e com os riscos que pode correr.

Comentários

Simone Nimitz disse…
Adorei!!! Deixa eu saborear... O que me veio ja na cabeça: transicionar, implica em pegar com as próprias mas as rédeas da sua vida..... e isso implica em muita responsabilidade sobre sua própria existência.

Siga nossa página