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"É preciso deixar de ser uma pessoa cisgênera para entender uma pessoa trans?"

Comemorando o dia da Visibilidade Trans, depoimento que dei ao portal desha.com.br, sobre minha experiência em consultório como pessoa transgênera.

"É preciso deixar de ser uma pessoa CIS para entender uma pessoa trans?"

Essa pergunta me foi feita por uma aluna de pós-graduação, durante um colóquio do qual participei. Esta (e algumas outras perguntas feitas durante a palestra) colocaram em questão o que acredito ser a conduta correta dentro da clínica. 

O fato de me colocar, frente a meus clientes, como uma pessoa transgênera, traria em si alguma consequência? E, se trouxerem, seriam boas ou más para eles? Deveria eu contradizer meu discurso e crença na autenticidade como meio e meta de vida e atuar contra esses pilares? Atender a um "dress-code" que me inviabiliza e traz, como consequência, a sensação de que minha conduta se tornou hipócrita?

Tenho presenciado manifestações, tanto de apoio como de preconceito, referente a questão Trans, das questões LGBT, etc,  dentro e fora do gueto. E, sempre, tenho grande cuidado quanto à maneira de externar às pessoas o que e como sou e como manejo essas questões, tanto no dia-a-dia quanto na prática clínica.

De fato, ser "trans" repercute na prática clínica. Ao que pude apurar, de forma bastante positiva junto àqueles que procuram meu trabalho. Recebi feedbacks como "prefiro ser atendida por você como você realmente é" , "me sinto mais seguro pois não sou só eu a discutir minhas questões em nível tão profundo", "não há problema em me mostrar tão vulnerável" e, o mais precioso, "assim você faz sentido para mim", disse-me uma cliente.
Essa interação entre terapeuta e paciente, e a dinâmica que resulta dela, enriquecida pela honestidade quanto à questão da identidade, permite explorar temas que vão muito além do gênero e da sexualidade e perpassam questões afetivas, familiares e profissionais, as transições de carreira e de vida. O que conta, de fato, é a sensibilidade, o vínculo e o engajamento de ambos no processo.


Confesso que, quando iniciei minha clínica, tinha medo e até vergonha de minha condição, e apresentava-me vestida e assumida como Trans apenas a clientes que traziam questões relacionadas ao tema LGBT. Isso fazia da minha agenda um pesadelo. Com o passar do tempo, fui apresentando minha realidade a cada um dos clientes, e foram surpreendentemente poucos, um ou dois, os que manifestaram alguma restrição ou se desligaram da terapia em pouco tempo. Trago aqui para discussão o que move e inspira pessoas, e o que me intriga, como no caso da aluna citada no início deste texto, a maneira como alguns questionam a existência do outro. 

Será possível, penso eu, deixar de ser a si mesmo, como sugere a pergunta? Ou criar vinculo, empatia, acolhimento terapêutico sem ser o que realmente se é no mundo, ainda que, possivelmente, em busca de respostas às próprias questões?

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