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Quem nos torna invisíveis? A Visibilidade Trans e seu propósito.

Falar da Visibilidade Trans não é só falar do quanto aparecemos, convivemos ou participamos do cotidiano do mundo, de sermos aceitas profissionalmente, artisticamente ou esteticamente. É, também... mas não só isso. O dia da Visibilidade Trans é um marco contra o preconceito, especialmente o que foi incutido nas pessoas trans a respeito delas próprias. É um momento para refletir sobre o direito de ser o que se é. E de poder expressar isso ao mundo.

Esse direito acontece, inicialmente, na representação que cada pessoa faz de si e como essa representação é recebida, entendida e correspondida pelas pessoas que recebem esta comunicação, na sociedade. Num post anterior, falei da passabilidade que a pessoa trans, especialmente a que inicia sua transição, almeja e persegue. Processo importante, mas também limitante, pois implica em parâmetros pelos quais a pessoa “pode” ou “deve” se expressar. Entender esse processo implica em se conhecer, se discutir e se aceitar, e ao mesmo tempo fazer isso com o outro, com o mundo. A meu ver, todas as pessoas carregam  em si enormes preconceitos a seu próprio respeito (então esse texto pode ir muito além das questões que envolvem as pessoas trans).


Há vários fatos que poderiam ser elencados aqui: o comerciante que raspou a imagem de Pabllo Vittar das latinhas de refrigerante, o “esquecimento” na hora de entregar o prêmio profissional a Paulette Pink, a maneira com que se estereotipou a presença trans na mídia... todos estes serão  temas de posts futuros. O preconceito existe e é direto. Mas pode se manifestar de forma subliminar. 


A cacofonia de opiniões sobre a participação de Tiffany numa das mais prestigiadas ligas esportivas do país elevou a discussão em torno de sua participação em torneios, levantando o tom sobre a questão da visibilidade trans. Procuro manter certa neutralidade em relação aos comentários, buscando ouvir o que realmente está em jogo nessa “intifada” de posts. Há muito o que escutar e que pensar sobre como os discursos estão tomando formas cristalizadas e pouco “abertas” em relação ao nosso tema.

A publicação “Biologia não é de esquerda nem de direita”, de Ana Paula Henkel, publicada no site do Estado em 28 de dezembro de 2017, vai ajudar a ilustrar minha visão. Vou usá-la para mostrar como esse preconceito se dissimula. 

A autora, que tem em seu currículo uma brilhante carreira no esporte nacional, acaba usando argumentos que contradizem exatamente aquilo que ela afirma respeitar,  como "Antes de tudo, a discussão não é sobre preconceito ou tolerância, é sobre a volta do bom senso. Nada contra Tiffany..." o que me faz concordar com Leticia Lanz em post recente sobre o mesmo tema, em 18 de janeiro de 2018. 

O texto inicia e retoma sistematicamente uma forma de depreciação do sujeito muito comum quando se quer minar a confiabilidade, a autenticidade e o direito do outro. Pegue-se por exemplo as frases abaixo:
  •       “Tiffany, 1,94m de altura, nasceu Rodrigo de Abreu. “
  •          “...agora se apresenta como Tiffany “
  •          “Tiffany, que foi Rodrigo ...”
  •          “...Fox é um homem batendo publicamente em uma mulher...”
  •          “Exaltar homens “que se identificam como mulheres” ... ”
  •          “a inclusão de atletas trans no esporte feminino significa a exclusão de mulheres."
Ao invés de construir um discurso que abra a discussão, ampliando a questão do que e como se afere o doping, as formas de elegibilidade, e temas afins, como ela declara pretender ao longo do seu texto, a autora desqualifica a atleta Tiffany por algo que é inerente à sua vida, escolhendo “insistir” na transição e não na discussão das regras que legalmente permitem a Tiffany participar dos torneios e competições.

O que discuto é não partir da premissa inclusiva, pedindo melhoras na “patrulha médica do Comitê Olímpico Internacional (COI), da Federação Internacional de Vôlei (FIVB) e da própria CBV”, como diz Ana. Ela pede a exclusão da atleta Tyffany das quadras, “É justo que agora participe de competições com quem é mulher desde que nasceu, que tem ossos, músculos, ligamentos e capacidade aeróbica tipicamente femininas? Você sabe a resposta.” e “ Pode parecer absurdo, mas até a possibilidade de uma convocação de Tiffany para a seleção brasileira já foi admitida pelo atual técnico, José Roberto Guimarães. Em quanto tempo teremos uma seleção feminina composta basicamente por transexuais?”, afirma.

Personagens do esporte contemporâneo, que extrapolam a curva normal desenhada pela autora, podem servir de base a uma nova visão do tema. Por que não usarmos atletas de porte como a pivô australiana Cambage, de 2,3m de altura, da pivô de 2,02m Maria Stepanova e Uļjana Semjonova com 2,13m de altura para o basquete, por exemplo, para estudar como incluir novas possibilidades... Não estou, com isso, insinuando que alguma das atletas tenha burlado qualquer regra ou norma para atingir sua performance, elas simplesmente são o que são, e seguiram as regras. Por que não usar, como no box, categorias de peso,ou altura, ou estrutura óssea, para balizar as participantes?

Se a regra está estabelecida assim, é preciso que ela seja depurada, melhorada. Se houve, em algum momento, injustiça, como ocorreu e foi julgado improcedente com Dutee Chand,  que ela cita, ou com Maria Patiño, atleta espanhola que descobriu-se impedida de competir  graças a esses critérios, por que não podemos melhorar os critérios pelos quais essa nova “onda de atletas” pode ser habilitada, sem excluir, desmerecer, desqualificar? (Há trabalhos belíssimos que aprofundam esta discussão. Gostaria de sugerir a leitura de um texto de Anne Fausto-Sterling "Dualismos em duelo", acessível aqui, caso queiram se aprofundar o assunto) é nesse ponto que se identificam o preconceito e a invisibilidade: no engessamento da argumentação.

Esse mesmo preconceito, embutido no discurso que vimos, está presente dentro das pessoas trans, em seus familiares, nas pessoas que convivem com elas, na sociedade. Esse é o motivo de um dia da Visibilidade Trans. Termos espaço para reflexão, expressão e cidadania.

Finalizo citando Letícia Lanz que, brilhante como sempre, descreve com duras, mas firmes, palavras o que acontece com as pessoas trans: “O que está em jogo na defesa da Tiffany é a defesa da dignidade humana, do direito da pessoa ser quem ela é. Esse direito é negado a toda e qualquer pessoa transgênera. Os argumentos podem variar, mas no fundo, é esse direito que é basicamente negado a toda pessoa que transiciona e essa é, aliás, a forma mais dura da sociedade punir a transgressão de gênero.”

Em tempo: Após a elaboração deste artigo, recebi erros em referências que obrigaram a reestruturação de partes do texto, sem perdas no conteúdo principal. A revisão foi feita dia 26/01.

Links importantes:

https://globoesporte.globo.com/google/amp/https://globoesporte.globo.com/volei/noticia/apos-reuniao-medica-fivb-ratifica-a-inclusao-de-transgeneros-no-volei.ghtml?__twitter_impression=true

http://www.scielo.br/pdf/cpa/n17-18/n17a02

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