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Tem que se mostrar tanto assim?

Tive o privilégio de ser convidada a participar da Mostra de Artes do Io Seminário Sexualidade e Diversidade, que acontece entre os dias 20 e 22 de abril próximos. Os quadros que enviei para serem expostos têm em comum a expressão de meus sentimentos em relação ao meu gênero, no momento em que os realizei. São obras fortes, marcantes, nem sempre “palatáveis”. Tanto quanto a transição que atravessei, e atravesso.

Ouço e leio muito a respeito da ansiedade, do resultado, da transformação que o processo de transição pode trazer. Sempre relacionados aos tratamentos médicos/cirúrgicos. Mas transicionar entre gêneros, a meu ver, tem a ver com o quanto a pessoa tem que lidar com as suas construções, sua formação como pessoa, sua maturidade, seu entendimento de si. Então, entendo eu, vem o processo de exteriorização desse eu. E, somente a partir desse ponto, a intervenção, eventual, é benvinda.

Eu mesma tenho as minhas ansiedades e medos. E sonhos. E desejos. Tod@s temos. Descobri que respeitar meu tempo (entre a primeira e a ultima obra que apresento nessa mostra, passaram-se 30 anos) permitiu-me entender os limites, os bloqueios, quem/como/o que sou. Ainda estou me descobrindo. E somente então passei a exteriorizar o que entendo como “meu” gênero.
A ideia de compartilhar a expressão de meus sentimentos com pessoas que podem estar cuidando ou passando pela transição de gênero vem de encontro ao desejo de descobrir e não temer o processo, pelo desconhecido que representa.

Acredito que, no lugar e momento que estou é preciso, sim, me mostrar, compartilhar e falar sobre um processo nem sempre fácil, simples, suave.

É preciso se mostrar, sim, para poder existir de fato no mundo.

  



Sou Fe Maidel, psicóloga clínica e organizacional, formada em cinema e artista plástica. Atuei também em teatro e TV, nas áreas de figurino e cenografia, mas a evolução da computação gráfica levou-me a trabalhar com artes gráficas por mais de 20 anos. É nesta época que comecei a desenvolver pinturas e cadernos de desenho, como meio de estudar movimento, forma e cores e a refletir sobre desejos e existência.
Atualmente, além do trabalho em consultório e do apoio psicológico à população trans, desenvolvo intervenções artísticas em conjunto com o Museu da Diversidade Sexual e este blog, “O T da Questão”, no qual discuto as transições a que estamos sujeit@s.

Comentários

Laís Bienemann disse…
Primeiramente, fora Temer.
Em segundo, parabéns pelo seu trajeto de aceitação e transformação.
Expor a si mesmo é importante principalmente para que as pessoas cada vez mais compreendam que as pessoas são pessoas e existem de maneiras diferentes aos padrões sociais impostos.
Caso não haja exposição de nós mesmos, seremos sempre estranhos ao mundo.

Fico muito contente de fazer parte da sua trajetória :)
Ana Amorim disse…
É um grande prazer ter sua participação no evento, sensibilizando e transformando percepções de profissionais de saúde de todo o Brasil.
Anônimo disse…
Gostaria de deixar aqui o meu carinho, respeito e admiração pela pessoa que és e seus lindos textos que nos levam a uma profunda reflexão
Beijos no seu coração
Katia


Anônimo disse…
Adorei o texto!! Vc tem uma sensibilidade ímpar!! Use sempre isso nos seus atendimentos, crescemos como psicólogos qdo não deixamos de ser humanos e empáticos!! Parabéns!!! Roberta.

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